Gualdim Pais



            De ascendência nobre, Gualdim Pais, nasce numa villa familiar ou quintã com sua torre, como é vulgar encontrar no que é hoje o concelho de Amares, a norte de Braga. Território rodeado de grande fertilidade (tanto temporal como espiritual) entre o rio Cávado e o mosteiro de Randufe
            Seu pai, D. Paio Ramires (pertencente à árvore genealógica dos Ramirãos), vem fazendo um percurso de vida, descendo para sul o Caminho de Santiago.
            Alumiado pela porta da Transfiguração, seus passos de peregrino levam-no até Caldelas de Galiza onde –gozando de bom acolhimento – conhece uma rica e honesta donzela de seu nome Urraca… e faz nela D. Vasco Pais, o seu primogénito, que há-de ser alcaide de Coimbra.
            Mas 3 anos depois, morrendo-lhe a mulher, já se encontra casado de novo com D. Gontrudes Soares, irmã de D. Paio Correia, o Velho, da família dos Correias, também uma das principais e numerosas famílias… presentes no território bracarense.
            E faz nela D. Gualdim Pais de Marecos, D. Gomes Pais de Priscos e D. Sancha Pais (Gabere). Gualdim tem pois dois irmãos chegados e outro (meio-irmão mais velho que reconhecerá mais tarde). Devido às alianças matrimoniais, os bens integrados na família avolumam-se dispersos pelo território minhoto, particularmente numa faixa entre o Ave e o Cávado (são de criação dos Ramirões terras como Lomar, Manhete e Tebosa).
            Nesta região de confluência de rios em vales largos e verdejantes, espraiando-se em vasta planície de terras férteis – autêntica terra mesopotâmica ou prometida – de clima ameno e boas águas pratica-se cultura intensiva de cereais de regadio, milho, feijão, além da vinha… Verdadeiro vergel divino, onde descansa de sua já longa cavalgada/demanda o nosso Ramirão. Verdadeira terra harmoniosa onde cada cousa é expressão do Verbo criador. […] Então todos viram surpresos que [Gualdim Pais] tinha um sinal gravado sobre o coração, tal como no antigamente nascera a sul o príncipe de Scalabidis tendo num braço marcado a vermelho uma flor.
            Estranho sinal era aquele na pele, que ninguém atinava ao certo o que seria ou queria significar. A D. Paio parecia uma espada, à mãe mãe parecia uma cruz… E chamado o astrólogo Merelim de S. Paio – uma terra ali próxima – depois de fazer uma observação demorada, disse veladamente que aquela criança estava destinado a altos feitos… profetizando que seria como um leão que havia de derrotar o Porco (infiel) por uma encosta abaixo e ele voltaria para Marrocos… […] E à sombra da serra do Gerês, foi crescendo entre ceifas e cavas e orações, pois açli eram também numerosos os recolhimentos… Ao todo entre o Cávedo e o Ave havia nesta altura 33 mosteiros criados por patronos senhoriais!
            O mais próximo era o Mosteiro de Santo André, uma das principais casas dos monges beneditinos, situado na freguesia de Rendufe, com sua igreja e claustra em granito, fundado pelo senhor do Bouro, D. Egas Pais.
            Outro mosteiro com ligações aos Ramirãos ficava em Manhete (Barcelos), onde andava trabalhando o mestre pedreiro Gundisalvus, colocando simbolicamente uma cruz pátea como pedra de fecho de uma porta em arco românico, e que na mesma época ajudava a erguer a Sé de Braga ali perto sobre um templo romano dedicado a Ísis A cruz pátea e Ísis num pequeno espaço… que suprema revelação nos aguarda?!... [Joaquim Nunes, O mestre Templário na fundação de Portugal].

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