[São Tiago da] Carvalhosa [Paços de Ferreira, Porto]


O território onde se situa a localidade teve uma ocupação que remonta a tempos muito recuados. Prova disso são o castro de São Domingos [1] e as necrópoles de São Roque [2] e de Peias [3].

Carvalhosa pertenceu, nos séculos X-XII, à denominada Terra de Sousa, área situada entre os vales do Tâmega e do Ferreira, cuja tenência era exercida pela família dos Sousa. Nos começos do século XIII, nas Inquirições de 1220, toda a região aparece [então] abrangida pela designação de Terra de Ferreira, área situada entre os rios Sousa e Ferreira, fruto de um novo ordenamento territorial resultante das alterações políticas ocorridas durante o reinado de D. Afonso II [1210-1223]. Posteriormente, durante o reinado de D. Sancho II [1223-1248] tiveram lugar intensas lutas que se prolongaram pelo reinado do seu filho D. Afonso III [1248-1279]. Com este monarca o concelho de Paços de Ferreira passou, nas Inquirições de 1258, a integrar os julgados de Refojos e de Aguiar de Sousa, ficando Carvalhosa no de Aguiar de Sousa e na arquidiocese de Braga.


A igreja matriz é dedicada a São Tiago e foi ampliada em 1620.
A sua arquitetura é de tal maneira rara que é caso único em Portugal e em toda a Península Ibérica pois só existe uma outra com as mesmas características. A raridade consiste no fato de o seu interior estar dividido em duas amplas naves exatamente iguais.
A fachada principal é muito simples, com empena triangular encimada por uma cruz latina, ladeada por uma torre sineira de forma quadrangular, com remate piramidal. Tem duas portas de entrada, retangulares, simetricamente colocadas para darem entrada direta a cada uma das naves. Ao meio um nicho central com a imagem [gótica] do padroeiro [São Tiago], em calcário, conjuntamente com duas [outras] imagens de Raimonda e Ferreira. No seu interior destaca-se a particularidade já mencionada das duas naves, a capela-mor revestida de azulejos do século XVII e a árvore de Jessé [4].
A cruz da Ordem do Templo aparece inscrita em várias das suas pedras.


[1] Foram identificados vestígios de muralhas e alguns fragmentos de cerâmica de pasta grosseira e de fabrico manual anterior à romanização e também algumas ânforas romanas.
[2] Descoberta em 1952, foram identificadas algumas sepulturas com oferendas diversas, casas e fornos.
[3] Pouco conhecida ainda lá foi encontrado algum espólio ocasional, tal como um jarro e duas bilhas.
[4] A Árvore de Jessé representa a árvore genealógica que relaciona Jessé, pai de David, a Jesus. O nome Jessé foi obtido a partir do nome original Isai, "homem servidor de Javé". Pertencente à tribo de Judá e de Belém, Jessé era descendente de Obed e possuía muitos rebanhos. O novo Messias nasceria da descendência de David, seu filho, e é aquela ascendência davídica que é profetizada na árvore de Jessé. […] Uma teoria recente identifica a figura masculina que aparece por baixo do peitoril da conhecida janela do Convento de Cristo em Tomar como sendo Jessé, de chapéu e barba, segurando as raízes da sua árvore genealógica com as mãos. [aqui].
Acerca do seu estudo aplicado [concretamente] à arte portuguesa vejam-se os estudos de Pedro Vitorino, Árvores de Jessé, em Douro Litoral, 2.ª série, n.º 1, 1944, pp. 25-30, Flávio Gonçalves, Para a compreensão de um retábulo do século XVII, em suplemento do jornal O Comércio do Porto, de 24 de janeiro de 1969, e Robert C. Smith, A talha em Portugal, pp. 78-79.
Capela da Senhora do Castelo [Castelo de Ródão, Castelo Branco]


A capela da Senhora do Castelo é um pequeno monumento situado cerca de 160m a noroeste do castelo. Assenta numa plataforma de altitude inferior à do castelo. Está bem enquadrada na paisagem, sobressaindo a cor branca das suas paredes.
Inicialmente teria planta rectangular, uma vez que as duas sacristias hoje existentes lhe foram adossadas posteriormente, ficando com planta em T.
O templo tem quatro janelas. Cada sacristia possui uma janela, envidraçada há poucos anos. As duas restantes foram abertas na fachada do templo, de ambos os lados da porta principal. Estas últimas têm a forma de seteira alargada e estão protegidas com grades de ferro.
A capela tem quatro portas para o exterior, construídas em madeira e de aparência resistente. Cada sacristia tem uma porta, estando viradas respectivamente para norte e poente. As outras duas dão acesso à nave da capela e estão viradas para sul e poente.
A fachada do templo, que está virada a poente, possui três aberturas para o exterior, como se afirmou, uma porta e duas pequenas janelas (0,58m x 0,24m) de contorno rectangular, ladeadas em todo o perímetro exterior por uma barra em alto-relevo e encimadas por um friso decorativo simples. Têm uma secção bitroncopiramidal.
A porta principal está envolvida por uma barra em alto-relevo, semelhante à da janela, e é rematada por um arco de volta redonda. O arranque do arco faz-se sobre duas impostas em tijoleira. Sobre a porta observa-se um nicho vazio. Entre este e o topo da porta está esculturada, em alto-relevo, uma pequena vieira.
Um poial simples e rústico acompanha, exteriormente, as paredes sul e poente.
A sacristia do lado norte possui planta rectangular (4,90m x 3,00m). Tem duas aberturas ao exterior; uma porta virada a norte e uma janela a nascente. Uma terceira porta dá acesso directo ao altar-mór. O telhado, de uma água, tem estrutura de madeira. Este compartimento contém um tanque, de betão, com uma pequena abertura fechada com tampa de ferro. Parece de construção recente. Deve ter servido para providenciar as carências de água neste lugar. Três bilhas de barro e um pequeno móvel em madeira muito degradado completam o recheio deste espaço.
A sacristia do lado sul é igualmente de planta rectangular (4,87m x 2,93m). Possui duas aberturas ao exterior, já mencionadas, e uma porta de ligação ao altar-mór. O espólio, observado em 1990, reduzia-se a um confessionário simples, uma escada de madeira e uma angarela também de madeira.
O corpo principal do templo é composto pela nave (8,98m x 5,00m) e pelo altar-mór (3,90m x 5,15m). A separá-los existe um arco de volta redonda. A nave possui quatro aberturas ao exterior já referidas: duas pequenas janelas, em forma de seteira, uma porta virada a poente, a principal, e uma outra porta virada a sul. O chão é revestido a cimento e o tecto, de três planos em forma de maceira, é forrado a madeira.
Do lado direito de cada uma das portas existe uma pia de água benta. São diferentes entre si. A pia fixada junto da porta principal, em granito de grão grosso, é pequena, singela, semi-esférica e de planta sub-circular. A outra pia, fixada junto da entrada sul, em granito de grão médio, tinha formato tronco-cónico, planta circular e era nervada no seu exterior. Assentava sobre uma base cilíndrica rebocada e caiada a branco. Esta pia foi roubada em Junho de 1994.
O altar-mór é um espaço de planta rectangular (3,90m x 5,11m), com duas portas que dão acesso às respectivas sacristias laterais e um grande arco de 0,53 m de espessura que a separa da nave. O tecto, de três planos, está revestido a madeira pintada de cor azul-acinzentada. O soalho é de dois níveis e está forrado a cimento.
A importância deste templete advém, principalmente, do seu espólio: um altar hodierno, em madeira, sem valor artístico; um silhar de azulejos com motivos mudéjares; uma imagem da Virgem com o Menino, em pedra, e um pequeno altar em talha barroca.
O frontal de azulejos cobre o altar-mór primitivo. É uma peça que remonta ao século XVII. Da superfície lateral norte (0,85m x 1,00m) são unicamente visíveis três azulejos e metade doutro numa única fila vertical. Os restantes sete azulejos e meio estão cobertos com cal. Na superfície restante não há vestígios de azulejos; ou não os há ou estão cobertos com uma espessa camada de argamassa. A superfície frontal (2,00m x 1,00m) está completamente coberta de azulejos. Na superfície virada a sul (0,85m x 1,00m) faltam vários azulejos. Nos últimos anos tem aumentado o número de azulejos roubados.
Os azulejos têm forma quadrangular com 0,13m de lado e cerca de 0,01m de espessura. Os motivos são mudéjares e quando agrupados quatro a quatro formam um círculo espesso que circunscreve um motivo rosáceo. As cores predominantes são o azul, o verde e o castanho claro, aplicadas sobre esmalte branco.
A parte superior do altar é em talha. "É uma muito regular obra do final do século XVII dentro do estilo da talha barroca a que o especialista Robert Smith chamou estilo nacional. Apesar das pequenas proporções, é sublime o ritmo que as quatro colunas salomónicas, decoradas com folhagens eucarísticas, conchas e cachos de uva, dentro de um naturalismo decorativo ainda pouco vincado imprimem ao todo retabular, rematado por duas espécies de arquivoltas".
Em 1986 as quatro colunas salomónicas foram roubadas. Em Junho de 1994 foi roubado todo o altar de talha. Por razões de segurança e de culto, a imagem de Nossa Senhora do Castelo encontra-se em Vila Ruivas há mais de uma década. A imagem voltava à capela nas ocasiões festivas, ou quando o culto o exigia, em particular na romaria de 15 de Agosto. A capela não voltou a ser usada para actos religiosos desde o roubo do altar de talha [1].


[1] João Caninas, Francisco Henriques e Jorge Gouveia, O castelo de Ródão e a capela da Senhora do Castelo (Vila Velha de Ródão).
Rosmaninhal [Idanha-a-Nova, Castelo Branco]


Esta e outras povoações da chamada raia, assim como toda a região entre os rios Zêzere e Erges eram já dos cristãos no tempo de D. Teresa embora estivessem despovoados.
Em 1165, D. Afonso Henriques doou Idanha-a-Velha e Monsanto, ao qual pertencia o vasto território mencionado supra, a D. Gualdim Pais, mestre provincial da Ordem do Templo [em Portugal] [1]. Foi, contudo, com D. Sancho, ao doar o território de Idanha a D. Lopo, sucessor de Gualdim Pais, que o repovoamento do local terá tido consistência [2].
Como sabido, após a extinção da Ordem do Templo, D. Dinis conseguiu que os seus bens fossem adjudicados à coroa e, em 1319, cedeu-os à Ordem de Cristo, fundada a instâncias suas [3]. Rosmaninhal passou assim para a nova Ordem sendo seus comendadores os marqueses de Fronteira e Alorna.
Em 1 de junho de 1510, D. Manuel [I] outorgou-lhe o [seu] primeiro e único foral conhecido.


[1] Foi por esta altura que o castelo terá sido construído e, dentro dele, a igreja [atual igreja matriz, situada na parte mais elevada da povoação e está rodeada por um amplo adro, a antiga barbacã], com cemitério anexo [*].
[2] Por um documento datado de 1307 e feito pelo bispo egitanense D. Vasco Martins sabemos que o Rosmaninhal foi pertença da Ordem do Templo e que foi um dos seus freires quem primeiro a povoou.
Este documento serviu como ação contra a Ordem do Templo por causa da jurisdição da Ordem sobre Idanha-a-Velha e Salvaterra e dos castelos de Rosmaninhal, Segura e Proença, apresentado para prova que Idanha-a-Velha e respetivo concelho não pertencia aos Templários, uma doação que D. Sancho II tinha feito ao bispo D. Vicente.
Este documento aparece transcrito num outro que D. Dinis mandou lavrar na Guarda, a 27 de abril de 1307, e diz:
Quando o rei D. Sancho II vosso tio povoou a cidade de Idanha-a-Velha (foral de 1229) e lhe tivesse dado termo demarcado por certos marcos, dentro desses marcos do termo de Idanha o mestre D. Pedro Álvares sem consentimento do concelho de Idanha-a-Velha tivesse povoado Proença e que D. Estêvão Beumeten frade dessa Ordem tivesse povoado o Rosmaninhal dentro dos marcos do termo de Idanha-a-Velha e tenham agora os frades os dois lugares contra a vontade do concelho de Idanha-a-Velha cujos devem ser e devem servir e fazer reverência como aldeias à sua cidade onde têm termo e foro. Pedimos por mercê que julgueis na cidade de Idanha-a-Velha, Proença e Rosmaninhal por suas aldeias pois estão em seu termo segundo o que parece por ser termo de Idanha-a-Velha.
[3] No tombo da comenda da Ordem de Cristo, datado de 1321, lê-se: Tem primeiramente a dita vila uma igreja da povoação de Nossa Senhora qual largamente se trata no processo das visitações, na visitação da dita igreja e se faz quando este tombo se mandou fazer. O mesmo acontece com os tombos de 1678 [onde se refere a capela de Nossa Senhora dos Remédios ou capela das Chuças] e de 1776.

            [*] No cemitério foram encontradas várias estelas [**], não necessariamente templárias, apresentando, a sua grande maioria, representações da cruz [***] grega, também conhecida por:
                        Cruz de braços curvilíneos [Abel Viana, Manuel J. Gandra, Beleza Moreira];
                        Cruz pátea [Manuel J. Gandra];
                        Cruz patada [Ana Cristina Oliveira];
                        Cruz orbicular [Almeida Garrett];
                        Cruz espalmada de braços côncavos [Félix Alves Pereira];
                        Etc.

            [**] Dois grupos, um dos quais desaparecido, compostos por seis estelas cada [Vide Mário Lobato Chambino, Rosmaninhal. Lembranças de um mundo cheio… e Francisco Henriques, João Caninas e Mário Chambino, Carta arqueológica do Tejo internacional, vol. 3].

            [***] Esta foi a cruz adotada, em meados do século XII, pelos Cavaleiros Templários. Assim, A Cruz aparece carregada de significado e é um dos símbolos mais documentados desde os tempos mais remotos. A Cruz simboliza a Terra e é a base de todos os símbolos de orientação (se tivermos em conta os pontos cardeais) […] è a cruz que estrutura a planta dos Templos, que atravessa os campos e os cemitérios. A intersecção dos seus braços marca as encruzilhadas. A iconografia Cristã conotou a cruz com a imagem da crucificação de Cristo. [Jorge Guedes e Luís Costa, Cabeceiras de sepulturas do adro da igreja matriz de Loures, Actas do VIII congresso internacional sobre estelas funerárias, realizado entre 16 e 18 de maio de 2005, em O arqueólogo português, suplemento 3, p. 199-213]
Castelo de Ródão [Castelo Branco]


Este imóvel militar é designado localmente por Castelo de Ródão, Castelo das Vila Ruivas, Castelo do Rei Vamba ou, simplesmente, Castelo das Portas. Apesar da designação adoptada, localmente, deverá antes ser considerado tipologicamente uma torre de vigia. É basicamente constituído por uma torre e uma muralha fechada e não integra nenhuma povoação. […]
A torre é um paralelipípedo rectângulo com cerca de 7,35m de dimensão horizontal nos lados norte e sul e 10,85m nos lados este e oeste. Possui cerca de 15m de altura e não apresenta área coberta. A torre é constituída por um piso térreo, hoje parcialmente entulhado por materiais provenientes do seu topo e do exterior. No interior, apresenta um friso, definido pelo adelgaçamento da parte superior da parede da torre, que suportaria um soalho em madeira.
Na parte superior da torre, e em cada uma das quatro faces, há aberturas para o exterior. As aberturas voltadas a este, norte e oeste são semelhantes entre si. São seteiras de recorte rectangular que estreitam progressivamente do interior para o exterior. Passam quase despercebidas a quem as observa de fora.
A abertura da fachada sul do monumento, ao nível do andar superior, corresponde possivelmente à porta. É um espaço definido por grandes blocos paralelipipédicos de granito. A entrada é de recorte rectangular no exterior e tecto abaulado no interior. Podem ainda observar-se os gonzos abertos no granito de ambos os lados da entrada e assentos laterais.
Exteriormente a porta é encimada por um lintel de recorte sub-rectangular, com aletas laterais, sobre as quais assenta a restante estrutura do arco de que fazem parte. As aletas estão demarcadas por um sulco bem vincado. É necessário observar com atenção para concluir tratar-se de uma só peça. Um bloco de configuração quase triangular preenche o espaço existente entre o bloco anterior e o fecho do arco.
No bloco sub-rectangular referido foram lavradas, de forma discreta, cinco linhas horizontais, paralelas. Apenas a primeira linha atinge o fim da lápide; as outras são interrompidas para dar lugar a um círculo, dentro do qual foi insculpida a cruz da Ordem do Templo. O círculo inscreve-se em dois traços paralelos e verticais que o ligam ao rebordo inferior do lintel.
O arco é constituído por cinco aduelas, de granito, e pela peça anteriormente descrita, que integra as duas falsas aduelas ou aletas. A aduela do lado nascente possui uma marca de canteiro em forma de "s" horizontal.
O acesso ao piso térreo, actualmente, é praticado através de um buraco disforme com cerca de 2,80m de altura e 1,80m de largura. Foi aberto para facilitar o acesso ao interior da torre, possivelmente após o seu abandono. As paredes da metade inferior da torre apresentam um reboco parcialmente conservado, que nos leva a admitir ter este espaço servido como armazém ou até como cisterna. As paredes da torre têm uma espessura aproximada de 2,45m, no piso térreo. No andar superior essa espessura é inferior.
Observa-se no exterior, principalmente no piso superior, integrar o aparelho da torre fiadas paralelas de blocos quartzíticos. Como material ligante foi utilizada uma argamassa de cor clara, rica em elementos anti-plásticos, oriundos certamente do rio devido aos muitos fragmentos de conchas que apresenta.
Os cunhais da torre, de alhetas alternadas, são constituídos por blocos graníticos paralelipipédicos (juntoiras). O cunhal sudoeste já não apresenta juntoiras. Do cunhal sudeste desapareceu o terço inferior. Dos cunhais noroeste e nordeste desapareceram, de cada um deles, cerca de quatro juntoiras. Informaram-nos, há muitos anos, que os blocos em falta foram retirados para serem instalados nas bocas dos fornos em aldeias vizinhas; o granito indicado para esta função, não existe na região e já se encontra devidamente talhado.
A torre está descentrada no espaço intramuros. A muralha aproxima-se da torre no lado norte (5,70m), afasta-se consideravelmente no lado sul (41m), dista 6,55m no lado oriental e 11m no lado ocidental. Do lado ocidental, entre a torre e a muralha, observa-se grande acumulação de pequenos blocos quartzíticos que devem ter pertencido a construções (alojamentos?). Há alguns anos, foram abertos dois buracos em frente da face sul da torre. A parte central do recinto é ocupada por afloramento quartzítico.
A muralha foi implantada no primeiro pico situado a norte das Portas de Ródão. Parece ser constituída por dois panos de muralha justapostos e apresenta-se muito derruída em alguns troços. A espessura do pano exterior ronda 1,85m e o pano interior tem 0,90m. Ambos os panos de muralha foram construídos com blocos de quartzito ligados por uma argamassa com as características já indicadas.
Junto da estrada que conduz à capela e ao castelo é visível uma espessa muralha com alguns metros de extensão. A sua disposição, transversal em relação à cumeada, era de molde a fechar o acesso mais fácil ao castelo. Na encosta leste, subjacente ao castelo, e junto do morro norte das Portas de Ródão existem estruturas semelhantes.
Na tradição local conta-se que o granito utilizado na construção do castelo veio do sítio do Castelejo de Gardete, onde existe um imponente afloramento granítico, único no concelho de Vila Velha de Ródão. […] [1]


[1] João Caninas, Francisco Henriques e Jorge Gouveia, O castelo de Ródão e a capela da Senhora do Castelo (Vila Velha de Ródão).
Várzea [Arouca, Aveiro]


Várzea, freguesia do concelho de Arouca e distrito de Aveiro, fica localizada num fértil vale junto à veiga do [rio] Arda, sendo que o seu orago é o Divino Salvador [1].
O povoamento do seu território remonta, pelo menos, à época pré-romana, o que se comprova pelos castros aí existentes. Um dos mais importantes é o [chamado] casal da Malafaia [2], descoberto em 1987, casal agrícola cuja ocupação se situa entre os finais do império romano até ao período visigótico ou [mesmo] até ao período de dominação árabe.
Um dos documentos mais antigos relativos à freguesia mostra que nela possuía bens à família de João Gosendes [3], uma vez que, um seu irmão de nome Nuno Gosendes, vendeu, em 1101, a D. Toga de Viegas os bens herdados de sua mãe [D. Aragunta Mendes] que aí possuía.
Segundo o Censual do cabido lamacense, datado da primeira metade do século XVI, a igreja era da apresentação do mosteiro de Arouca e, no final do século XVIII, D. Joaquim de Azevedo dizia que ela se chamava [também] Salvador do Brugo e era comenda da Ordem de Cristo.


[1] Existem provas documentais de documentam a sua existência já no século X.
[2] Cf. os topónimos Moradal ou Muradal que corresponderão a um derivado de muro que outra coisa não deve significar senão defesa castreja.
[3] Ao que julgo saber tratava-se de um rico-homem especialmente detentor de bens [herdados] no concelho de São Pedro do Sul.
Águas Belas [Ferreira do Zêzere, Santarém]


A primeira referência que se conhece mencionando Águas Belas data de 1159, quando D. Afonso Henriques doa a região à Ordem do Templo. Em 1190, é D. Sancho I quem cede a Pedro [Pero] Ferreira, fundador de Ferreira do Zêzere, uma herdade que este povoou e que, mais tarde, viria a constituir o morgadio de Águas Belas.
Aliás, a Pedro Ferreira e a sua mulher, Maria Vasques, se deve a primeira carta de foral da povoação então designada de Vila Ferreira ou Abas de Aquabela.
Em 1319, pouco após a extinção da Ordem do Templo, estes territórios passam para a posse da Ordem de Cristo e, em 1356, é instituído o morgadio de Águas Belas [1], na pessoa de D. Rodrigo Álvares Pereira [2], irmão do célebre condestável. D. Manuel [I] outorgou-lhe foral [novo] em 1513 e D. João III, em 1531, elevou-a à categoria de vila.


[1] Dom Pedro pela graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve. A quantos esta carta virem faço saber que Álvaro Fernandes escudeiro meu vassalo tutor de Rodrigo Álvares e de Pedro Álvares e de Diego Alvares criados do prior do Hospital me disse que ele e Gomes Martins do monte outrossim meu vassalo e João Afonso natural de Sevilha fizeram doações de parte de seus bens aos sobreditos cujo tutor ele é como se contém em escrituras públicas de tabeliães que tais são. Em nome de Deus amém saibam quantos esta carta de doação e de ordenação e de morgado virem que eu Álvaro Fernandes escudeiro vassalo do infante D. Pedro dou e outorgo por juro e herdade para sempre a vós Rodrigo Álvares filho de D. Álvaro Gonçalves de Pereira as minhas quintas de Águas Belas e de Vale de Orjaes com todas as herdades também de pão como de vinho assim arrotas como por arromper e com todos os casais e matas e defesas e com todo o senhorio e couto e honra e jurisdição e padroado da igreja de Santa Maria do dito lugar de Águas Belas e com todas as entradas e saídas e divisões e com todos seus usos e direitos e coisas e pertenças que às ditas quintas pertencem de direito e de facto também nos termos e divisões das ditas quintas como fora deles. E esta doação e ordenação faço por esta guisa que depois da nossa morte fiquem as ditas quintas e as coisas sobreditas ao primeiro filho lídimo que houverdes e assim fique sempre ao maior filho daqueles que de vós descenderem lidimamente. E quando hi houver filho lídimo a filha lídima não possa herdar como quer que maior seja. E quando hi não houver filho lídimo que então fiquem as ditas quintas e casais e pertenças delas e senhorio e jurisdição e padroado a Pedro Álvares irmão do dito Rodrigo Álvares e aos seus filhos e aos descendentes deles pela guisa que dito é de Rodrigo Álvares. E não ficando filhos lídimos do dito Pedro Álvares que fiquem a Diego Álvares e daí em diante fiquem pela linha direita aos descendentes dele. E se hi não houver descendentes fiquem a seus irmãos que venham da parte do dito D. Álvaro Gonçalves padre do dito Diego Álvares e haja os para sempre uma pessoa por morgado pela guisa que dito é de Rodrigo Álvares e de seus descendentes. E quando estes susoditos não houverem filhos lídimos que então as filhas maiores possam herdar assim como dito é dos filhos maiores lídimos e assim os seus descendentes deles. E ficando estas pessoas susoditas extintas e os descendentes delas que então fiquem as ditas quintas e casais e jurisdição e senhorio e padroado e pertenças delas ao Hospital de Santa Maria de Flor da Rosa. E esta doação vos faço por muito bem e muita mercê que me fez vosso padre e aqueles donde vindes e dou e outorgo eu dito Álvaro Fernandes a vós dito Rodrigo Álvares quer a vosso tutor ou criador poder cumprido para entrardes em tença e a posse das ditas quintas e coisas susoditas sem outorgamento de juiz ou doutra pessoa qualquer e sem outra nenhuma figura de juízo. E sobre tudo isto prometo e outorgo que esta doação e ordenação e morgado vá sempre por firme e estável e que nunca contra ela venha por nenhuma maneira a….damente que nunca a revogarei ainda que depois fizerdes ou disserdes algumas das coisas que dizem as leis por que as doações podem ser revogadas. E todas estas coisas e cada uma delas prometo por mim e por meus herdeiros de guardar e cumprir e de não vir contra nenhuma delas sob pena de quatro mil libras a qual pena pagada ou não a dita doação ordenação fique sempre firme e valedora feita a dita carta em bom jardim termo da Sertã seis dias de Setembro era de mil trezentos e noventa e quatro anos [ou seja, 1356].
Testemunhas: frei João Fernandes comendador da Flor da Rosa e João Afonso e Vasco Rodrigues e Gomes Martins escudeiros do prior do Hospital e outros. E eu Domingos Vicente tabelião de nosso senhor El-Rei na Sertã a isto presente e rogado fui e a mandado e outorga do dito Álvaro Fernandes esta carta da dita doação e coisas escrevi e meu sinal aqui fiz que tal é.
E para as ditas doações serem firmes e estáveis para sempre e não poderem ser desfeitas nem revogadas pediu-me por mercê o dito Álvaro Fernandes como tutor dos ditos moços e em seu nome deles que lhas confirmasse e outorgasse as ditas doações como em elas é conteúdo e lhes mandasse dele dar minha carta. E eu vendo o que me pedia e querendo fazer graça a mercê aos ditos Rodrigo Álvares e Pedro Álvares e Diego Álvares de minha certa ciência e de meu poder absoluto outorgo-lhes e confirmo as ditas doações que lhes assim os sobreditos Álvaro Fernandes e Gomes Martins e João Afonso fizeram das ditas quintas e coutos e honras e pertenças e direitos delas e as hei por firmes estáveis para sempre pela guisa que lhes pelos sobreditos foram dadas e outorgadas e é conteúdo nas ditas cartas das ditas doações. E se nas ditas doações e em esta minha carta de confirmação falecem algumas clausulas que de direito e de costume aí devessem ser postas para as ditas doações serem valiosas e estáveis eu as hei aqui por postas e escritas. E quero e mando que lhe não possa porem de fazer nenhum prejuízo. E que valham e sejam firmes e estáveis para sempre sem outro nenhum valimento. E em testemunho disto mandei dar aos sobreditos Rodrigo Álvares e Pedro Álvares e Diego Álvares esta minha carta selada do meu selo de chumbo dada em Elvas XX de Maio El-Rei o mandou por Lourenço Esteves seu vassalo Vasco Anes a fez era de mil trezentos e noventa e nove anos [isto é, 1361]. [Chancelaria de D. Pedro I, Livro 1, fl. folha 53v. Vide António Baião, A vila e concelho de Ferreira do Zêzere, pp.64-66]
[2] D. Rodrigo Álvares Pereira, legitimado pelo Rei D. Pedro a 26 de Agosto de 1357, foi constituido pelo seu tutor, Álvaro Fernandes, escudeiro do Infante D. Pedro, a 6 de Setembro de 1356, morgado da Quinta de Orjais e de Águs Belas (Ferreira do Zêzere), com todas as dependências, senhorio, couto, honra, jurisdição e padroado da igreja. A instituição do morgado de Águas Belas viria a ser confirmada por D. Pedro, a 20 de Maio de 1361.
Acrescem ainda outros senhorios que lhe foram doados, agora por D. Fernando, a 14 de Dezembro de 1375, como as vilas de Sousel, Vila Nova, Vila Ruiva, e as azenhas de Anhalouro e de Bamlhequero, no termo de Estremoz.
Relativamente a Águas Belas o mesmo atesta o excerto seguinte: “A história desta localidade anda de braço dado com a da fundação da nacionalidade e com as principais famílias do Reino, daí que num documento datado de 1222 encontramos já uma referência, quiçá a mais remota que se conhece, a "abas de aquabela" o que nos permite concluir não só da antiguidade deste povoado como da existência de um representante do clero nos seus limites geográficos.
Já no século XIV, mais concretamente em 6 de Setembro de 1356, El Rei institui um Morgado de Aguas Belas entregando-o ao fidalgo Rodrigo Alvares Pereira, irmão daquele que viria mais tarde a ser o Condestável do Reino e filhos ambos de Alvaro Gonçalves Pereira.”
Ora, D. Rodrigo torna-se assim o primeiro senhor de Águas Belas; sucedendo-lhe depois Álvaro Pereira, Galiote Pereira, João Pereira, Rui Pereira, sendo posteriormente integrado na Coroa, uma vez que Rui Pereira não teve descendentes. Todavia, Violante Pereira contesta esta decisão, tendo ganho a posse do morgado de Águas Belas que passou para as mãos de seu filho. Violante Pereira havia casado com Francisco Sodré, que viria a morrer na Índia. Deste casamento advém o nome dos Sodré Pereira, que continuaram a ser os senhores de Águas Belas.
D. Rodrigo, que lutou ao lado de D. João I, o Mestre de Avis, na defesa de Lisboa contra os castelhanos e no cerco de Torres Novas, viria a ser aprisionado na sequência desta última batalha, e libertado em Santarém, quando esta cidade voltou à posse de Coroa Portuguesa. Todavia, fruto de algumas «desinteligências», viria a morrer em Castela, perdendo algumas mercês.
Ora, aqui está toda uma realidade histórica que religa a minha «pátria» à memória da família Álvares Pereira. Desde miúdo ouvia falar da Quinta dos Pereira, na chamada Águas Belas velha, sem saber deste relacionamento familiar.
Aqui está também uma razão, que por si só, legitima esta vontade indómita de participar na canonização de D. Nuno. Certamente acrescida de muitas outras: a sua santidade - deste santo Português -; a sua íntima relação com nossa identidade; a sua capacidade de se desprover de tudo para abraçar o “bem maior”; e, mesmo, a sua relação com a Ordem do Carmelo, que me faz ligá-lo espiritualmente àqueles que, mais tarde, apenas no século XVII, povoaram e renovaram a bela Mata do Buçaco - a Ordem dos Carmelitas. Por tudo isto, participar num momento tão significativo da nossa memória, da nossa identidade e da nossa espiritualidade, torna-se para mim um dom. [aqui]
Alconchel [Badajoz, Extremadura]


Quando se estudam os castelos Templários Portugueses, há a tendência para esquecer os fronteiriços, que estão actualmente em território espanhol.
Devemos esclarecer que tanto este que aqui hoje abordamos como o que iremos publicar proximamente, são casos especiais, uma vez que continuam portugueses, em território ocupado ilegalmente por Espanha.
Assim, vamos encontrar a sul de Olivença, o castelo Templário de Miraflores, na localidade de Alconchel [1].
No século XI os muçulmanos aqui reedificaram, sobre as ruínas de uma velha fortaleza, o hisn al-Hadid. O "Castelo de Ferro".
É conquistado em 1166 por el-Rei D. Afonso I de Portugal com a ajuda dos Templários Portugueses aos quais é confiada a sua defesa, assim como a protecção da população moçarabe.
Nesse mesmo ano o soberano faz dele doação à Ordem do Templo, tendo o Mestre D. Gualdim Pais mandado "recompor" o castelo, a que passa a chamar de Alconchel. Diz-se que tal nome se deve às características do terreno envolvente, onde as colinas faziam lembrar conchas do mar mas, na verdade deriva do arábico Alcoucel que significa "cúpula" ou "coruchéu", tal é a forma do monte onde o castelo se situa.
Em 1264 passou para a Coroa de Castela embora continuasse sob o controle dos Templários Portugueses cujos Mestres o foram dos três reinos (Portugal, Castela e Leão), assim permanecendo até 1312.
Ao cabo de século e meio de permanência no território os Comendadores Templários deixaram-nos, nos seus Livros de Guerra, uma vasta e riquíssima memória narrativa plena de casos de luta, disciplina, heroísmo, sacrifício, abnegação, convivência e benevolência.
Mas nem tudo ficou registado nesses diários militares da Ordem.
Existe uma curiosa lenda Templária, relatada num pergaminho datado do século XII por um velho morabito árabe (homem pio, rodeado de uma certa áurea de santidade) que habitava uma colina vizinha. […] [Templários portugueses]



[1] Parece que o morro ou outeiro em que fica o castelo já foi povoado em tempos pré-romanos, na época romana e na época visigoda. Mas será com a queda do Califado de Córdoba e a formação do reino aftasi de Badajoz que este lugar começou a adquirir mais importância do ponto de vista estratégico. Já o emir 'Abd-al-Rahman (Abderramão) II (822-852) tinha construído uma fortaleza para defender o território das razias dos exércitos do reino das Astúrias, depois reino de Leão. Os reinos de taifas que surgiram após a desaparição do Califado estavam muitas vezes em guerra entre eles pelo controlo do território e é nesse sentido que devemos ver a reparação e ampliação da fortaleza de Alconchel.
No século XII, após a conquista de Évora para Portugal em 1165, Geraldo Sempavor ocupa a fortaleza o ano seguinte junto de outras como as de Mourão, Serpa e Juromenha na tentativa de ocupar Badajoz que acaba com o famoso “desastre de Badajoz” em 1170 quando o rei D. Afonso Henriques, a ponto de ocupar a alcáçova, é ferido a causa da aliança do seu genro Fernando II de Leão com os almóadas. O castelo esteve na posse dos leoneses até 1174, em que os almóadas o recuperaram e iniciaram trabalhos de ampliação. Não seria até à década 1230 com a tomada de Badajoz pelo rei Afonso IX de Leão que o castelo e a localidade entrem a formar parte do reino de Leão e com o rei Fernando III, rei de Castela e Leão, faça doação do castelo à Ordem do Templo, que gerirá esta propriedade doada como “juro de herdade e para sempre” até à sua dissolução em 1311.
Entretanto, o Tratado de Alcanices de 1297 fez com que os territórios de Olivença e Táliga passassem para a dominação portuguesa, facto que converterá este castelo em fortaleza fronteiriça. Não devemos esquecer o facto de a fronteira ter-se situado 5 km. a Norte da localidade e 4 a Leste, na direcção de Táliga. Isso fará com que a relevância do castelo aumente de forma considerável. Tomado pelo rei D. Dinis em 1311, a partir de 1313 vai passar a mãos de diferentes casas da nobreza castelhana. As guerras de Portugal com Castela terão grande importância, designadamente nos séculos XVII, XVIII e XIX. O castelo e a vila de Alconchel serão alvo de duas ocupações portuguesas no contexto da Restauração em 1642 e 1643. Será ainda ocupada pelo exército francês aquando da Guerra Peninsular até 1812. Acabada a contenda, a fortaleza perde a sua importância pela anexação de Olivença a Espanha pelo Tratado de Badajoz de 1801 e pelo facto de a vida municipal focalizar-se na Câmara (Ayuntamiento) situada na vila, ao sopé do castelo.
De factura essencialmente gótica, o castelo consta da torre de menagem muralhas e ameias e segue uma tipologia construtiva que podemos observar no castelo de Juromenha ou o castelo de Alburquerque. Consta ainda de algibe ou cisterna de tipo mudéjar para assegurar o subministro de água em épocas de seca ou em cercos ao castelo. Foi alvo de restaurações recentes por parte do Governo da Junta da Extremadura.
A visita do castelo vale a pena pelo não só pela sua beleza, mas também pelas vistas que se apreciam para a vila de Alconchel, a planície que se estende até Olivença e a planície que de Alconchel chega até perto de Táliga e outras aldeias vizinhas. É possível ainda apreciar pequenas serras como a Serra de Montelongo e da Faragosa a Leste, a Serra de Santo Amaro, perto de S. Bento da Contenda (oficial San Benito de la Contienda), e o vizinho Cerro de la Esperanza. [aqui]
A Ordem do Templo [na Estremadura central]

Por documentação indireta, conhecemos duas herdades. Uma delas confronta com outra de Alcobaça, em lugar indeterminado do termo [1]. Ela é anterior a 1182 Junho, data do documento alcobaciano. Outra confronta a sul com a que o cavaleiro de Leiria João Saído escamba com Alcobaça, em Alpeitede [2], em 1262 Novembro [3]. Esta é a única localização conhecida: uma propriedade nas ricas planícies aluviais do rio Lena, junto à Batalha. A localização da herdade doada em 1278 por D. João Soares Coelho é também desconhecida [4], mas nada impede que a coloquemos em Ulmar [5] ou em Cortes [6], a norte da vila, junto às que, como foi referido acima, a sua filha doou a Alcobaça [7]. Igualmente não encontrámos a localização de uma outra herdade dos Templários, no lugar do chamado Cabeço do Freire [8], a cujos colonos se passa uma segunda carta de povoação, em 1301 Maio 15, por terem perdido a primeira de 1264 Junho 14 [9].


[1] CR, Alc., m. 1, n.º 24.
[2] No atual concelho da Batalha. Vide Pedro Gomes Barbosa, Coz maior et minor.
[3] CR, Alc., m. 10, nº 33.
[4] Livro de Mestrados, fol. 43v, col. 1.
[5] Eu frei Martinho, [...] por mandado do mui nobre senhor D. Dinis, pela Graça de Deus rei de Portugal, dou a vós, Gil e Pelágio e a vós Tauro e a Domingos Vicente e a vossos companheiros, o paul do reguengo de Ulmar de Leirena [...], durante dez anos e vós deveis arrotear o dito paul nos primeiros três anos e deveis dar em cada um dos ditos dez anos, a nosso senhor El-Rei, o quarto de todos os frutos que aí colheres. [Mosteiro de Alcobaça, carta de 6 de junho de 1291]
[6] A povoação das Cortes é uma das povoações mais antigas do termo de Leiria, a ela se referindo numerosa documentação medieval. As primeiras referências documentais, até hoje conhecidas, surgem por volta de 1250 num pergaminho em que os templários (de Tomar) registaram as suas propriedades existentes no termo de Leiria. [aqui]
[7] CR, Alc., m. 21, n.º 34, e OSB, Mosteiro de Alcobaça, m. 3, n.º 115 (2).
[8] Livro de Mestrados, fol. 91v, col. 2, e 92, cols. 1 e 2.
[9] Pedro Gomes Barbosa, José Manuel Varandas e António Vicente, Propriedades das Ordens Militares na Estremadura Central (sécs. XII e XIII), comunicação apresentada ao I encontro sobre Ordens Militares, realizado em Palmela, de 3 a 5 de março de 1989.
Trancoso [Guarda]


Diz-se que o povoamento de Trancoso terá começado por volta do século XIX a.C., baseando-se tal informação na existência de um primitivo castro, inicialmente pastoril e posteriormente defensivo, situado no local onde, mais tarde, se havia de erguer o castelo. Em 301 a.C., chegaram os romanos [1] que aproveitaram e ampliaram o castro, que aí terão permanecido até ao ano 409 da nossa era.
Comumente, existem duas hipóteses sobre a origem do nome Trancoso:
i)                    dos túrdulos;
ii)                  de um enviado da Etiópia e do Egipto, de seu nome Tarracon. Desta [segunda] hipótese terá resultado o nome Trancoso, ou seja, Tarracon à Taroncon à Trancoso.
Outros defendem [ainda] que o nome será o resultado do vocábulo arcaico Troncoso, sítio onde existem muitos troncos ou florestas [2].
O certo é que o nome aparece documentado pela primeira vez, no século X, no testamento de D. Chamoa [ou D. Flâmula ou D. Chama], filha do conde D. Rodrigo, com doação do castelo e dos bens que aí detinha, uma vez que estava na posse de toda a região a sul do Douro [3].
Trancoso foi, em 1059, libertada do poder dos árabes para, por bula de 8 de setembro de 1148, o papa Eugénio III confirmar ao arcebispo de Braga, D. João Peculiar, a posse, entre outras terras, do território de Trancoso. Finalmente, D. Afonso Henriques pelejou-a, contra os mouros, entre 1140 e 1155, encheu-a de privilégios, atribuindo-lhe o seu primeiro foral e doando, em 1173, à Ordem do Templo, o castelo e todos os seus domínios.
Em 1217, D. Afonso II, por carta régia, confirma tais privilégios e regalias e, em 1270, D. Afonso III cede por 600 libras anuais os seus direitos sobre a localidade, o que mostra, com evidência, o valor já assumido pela povoação.
É, contudo, com a escolha de Trancoso para celebrar o seu casamento com D. Isabel de Aragão, que D. Dinis confirmará a sua importância, concedendo-lhe o direito de mudança da sua feira franca instituída por seu pai, D. Afonso III, em 1306, para a periodicidade mensal, em vez de anual e dilatando-lhe a duração para três dias.

O castelo tem traços do estilo românico e gótico, compreendendo cinco torres quadrangulares. A torre de menagem, de planta quadrada, tem uma curiosa configuração piramidal. A cintura muralhada que abraça a povoação é rasgada por cinco portas e dois postigos [4].
À [chamada] porta do Carvalho, também conhecidas por do Cavalo, encontra-se ligada a lenda de João Tição da Fonseca:
Sem conhecermos mais gordo João Tição da Fonseca, tão só pelo retrato sumamente adulterado da lenda, não nos parece curial deixar passar em falso o seu presumível feito, nem tampouco, a sua descrição física que, quiçá fantasiosa, pecará por defeito, que não por excesso.
O Tição devia ser um jovem e valente guerreiro, hercúleo, de ombros largos e peito em arco, daqueles homens talhados em granito que dariam dois se fossem partidos ao meio.
Em dia melancólico, olhando os longos desertos e a presença incomodativa dos mouros que faziam demorado cerco à praça de Trancoso, o guerreiro magicou sobre o meio de sair montado no corcel e correr de jau para jales em desafio à moirama excomungada.
Enquanto a maioria dos do castelo se baldeava no sono, numa sinfonia de roncos, assobios e arfares de duvidosa partitura, João Tição resolvera matar o tédio dos dias de clausura forçada. Causava-lhe certo engulho ver enferrujar na bainha os gumes da sua espada.
Saiu do castelo pela calada da noite, apenas pressentido por lobos e avejões, catrapus catrapós sobre o cavalo, direitinho ao arraial dos agarenos que, a uma légua do castelo, ferravam o galho em sonhos de princesas em trajes sumários e haréns recheados.
Com uma certa temeridade e outra tanta dose de loucura, conseguiu ludibriar as sentinelas e, penetrando no acampamento, apoderou-se da bandeira do crescente que espanejava sobre uma tenda. Refreando os ímpetos de espezinhar ali mesmo o guião, montou no cavalo e partiu em desfilada de regresso ao castelo, levando desfraldada ao vento a sua vitória.
Porém, um homem excluído da beatitude de sonho embalador, deu conta da marosca e alertou os dorminhocos, mau grado ter preparado os ouvidos para ouvir impropérios onde não era mencionado o nome de Alá. Feridos na soberbia, os mouros zarparam em perseguição do atrevido. Montados em fogosos e descansados puros-sangue de raça árabe, depressa diminuíram a distância que os separava do fugitivo. Este, presumindo as portas a Nascente abertas, para aí fez colear o cavalo. Porém, as sentinelas, vendo aquele vulto com bandeira moura estadeada, não abriram uma nesga.
Logo que ciente da situação, o cavaleiro deu uma palmada na garupa do cavalo e gritou:
- Salta, cavalo! Morra homem, fique a fama!
Morreu o homem e ficou a fama. Rebentou o cavalo e, ali mesmo, foi trucidado pelos inimigos. A bandeira fora arremessada pelo herói para dentro das muralhas. Com grande espalhafato de armas e celeuma de vozes, os mouros foram impotentes para recuperarem o galardão. Apenas levaram para a sua terra a lição de coragem que lhes servira o João Tição da Fonseca [5].

Antigamente designada por Igreja de Santa Maria do Sepulcro [ao que se sabe, nome atribuído pelos Templários] e Senhora do Pranto [a seguir à tomada de Ceuta, em 1415], só em 1663 recebeu o [seu atual] nome de [igreja de Nossa] Senhora da Fresta. Datada dos finais do século XII [a igreja] foi erguida sobre uma outra, anterior ao ano de 992. D. Afonso Henriques mandou-a reconstruir e entregou-a, em 1162, à Ordem do Templo. A sua traça romano-gótica permaneceu até ao século XVIII. Tem inscrições e frescos [pintados em 1162] nas paredes, no arco triunfal da capela-mor e na pia baptismal, romântica. A sacristia foi-lhe acrescentada, por promessa, em 1664.

            Escusado será dizer que [Trancoso] é a terra do [famigerado] sapateiro [Gonçalo Annes] Bandarra.


[1] Antes deles e, durante cerca de trezentos anos, lá estiveram os cartagineses.
[2] Trancoso, nos seus primórdios, estava rodeada de densas florestas e, ainda hoje, é viveiro de árvores de grande porte.
[3] Herdada em 960.
[4] As d’El-Rei, a de São João, as do Prado e a do Carvalho e a da Traição. A estas juntavam-se os postigos: Olhinho do Sol e o Boeirinho.
[5] Santos Costa, Almanaque anuário de Trancoso.