Trancoso [Guarda]


Diz-se que o povoamento de Trancoso terá começado por volta do século XIX a.C., baseando-se tal informação na existência de um primitivo castro, inicialmente pastoril e posteriormente defensivo, situado no local onde, mais tarde, se havia de erguer o castelo. Em 301 a.C., chegaram os romanos [1] que aproveitaram e ampliaram o castro, que aí terão permanecido até ao ano 409 da nossa era.
Comumente, existem duas hipóteses sobre a origem do nome Trancoso:
i)                    dos túrdulos;
ii)                  de um enviado da Etiópia e do Egipto, de seu nome Tarracon. Desta [segunda] hipótese terá resultado o nome Trancoso, ou seja, Tarracon à Taroncon à Trancoso.
Outros defendem [ainda] que o nome será o resultado do vocábulo arcaico Troncoso, sítio onde existem muitos troncos ou florestas [2].
O certo é que o nome aparece documentado pela primeira vez, no século X, no testamento de D. Chamoa [ou D. Flâmula ou D. Chama], filha do conde D. Rodrigo, com doação do castelo e dos bens que aí detinha, uma vez que estava na posse de toda a região a sul do Douro [3].
Trancoso foi, em 1059, libertada do poder dos árabes para, por bula de 8 de setembro de 1148, o papa Eugénio III confirmar ao arcebispo de Braga, D. João Peculiar, a posse, entre outras terras, do território de Trancoso. Finalmente, D. Afonso Henriques pelejou-a, contra os mouros, entre 1140 e 1155, encheu-a de privilégios, atribuindo-lhe o seu primeiro foral e doando, em 1173, à Ordem do Templo, o castelo e todos os seus domínios.
Em 1217, D. Afonso II, por carta régia, confirma tais privilégios e regalias e, em 1270, D. Afonso III cede por 600 libras anuais os seus direitos sobre a localidade, o que mostra, com evidência, o valor já assumido pela povoação.
É, contudo, com a escolha de Trancoso para celebrar o seu casamento com D. Isabel de Aragão, que D. Dinis confirmará a sua importância, concedendo-lhe o direito de mudança da sua feira franca instituída por seu pai, D. Afonso III, em 1306, para a periodicidade mensal, em vez de anual e dilatando-lhe a duração para três dias.

O castelo tem traços do estilo românico e gótico, compreendendo cinco torres quadrangulares. A torre de menagem, de planta quadrada, tem uma curiosa configuração piramidal. A cintura muralhada que abraça a povoação é rasgada por cinco portas e dois postigos [4].
À [chamada] porta do Carvalho, também conhecidas por do Cavalo, encontra-se ligada a lenda de João Tição da Fonseca:
Sem conhecermos mais gordo João Tição da Fonseca, tão só pelo retrato sumamente adulterado da lenda, não nos parece curial deixar passar em falso o seu presumível feito, nem tampouco, a sua descrição física que, quiçá fantasiosa, pecará por defeito, que não por excesso.
O Tição devia ser um jovem e valente guerreiro, hercúleo, de ombros largos e peito em arco, daqueles homens talhados em granito que dariam dois se fossem partidos ao meio.
Em dia melancólico, olhando os longos desertos e a presença incomodativa dos mouros que faziam demorado cerco à praça de Trancoso, o guerreiro magicou sobre o meio de sair montado no corcel e correr de jau para jales em desafio à moirama excomungada.
Enquanto a maioria dos do castelo se baldeava no sono, numa sinfonia de roncos, assobios e arfares de duvidosa partitura, João Tição resolvera matar o tédio dos dias de clausura forçada. Causava-lhe certo engulho ver enferrujar na bainha os gumes da sua espada.
Saiu do castelo pela calada da noite, apenas pressentido por lobos e avejões, catrapus catrapós sobre o cavalo, direitinho ao arraial dos agarenos que, a uma légua do castelo, ferravam o galho em sonhos de princesas em trajes sumários e haréns recheados.
Com uma certa temeridade e outra tanta dose de loucura, conseguiu ludibriar as sentinelas e, penetrando no acampamento, apoderou-se da bandeira do crescente que espanejava sobre uma tenda. Refreando os ímpetos de espezinhar ali mesmo o guião, montou no cavalo e partiu em desfilada de regresso ao castelo, levando desfraldada ao vento a sua vitória.
Porém, um homem excluído da beatitude de sonho embalador, deu conta da marosca e alertou os dorminhocos, mau grado ter preparado os ouvidos para ouvir impropérios onde não era mencionado o nome de Alá. Feridos na soberbia, os mouros zarparam em perseguição do atrevido. Montados em fogosos e descansados puros-sangue de raça árabe, depressa diminuíram a distância que os separava do fugitivo. Este, presumindo as portas a Nascente abertas, para aí fez colear o cavalo. Porém, as sentinelas, vendo aquele vulto com bandeira moura estadeada, não abriram uma nesga.
Logo que ciente da situação, o cavaleiro deu uma palmada na garupa do cavalo e gritou:
- Salta, cavalo! Morra homem, fique a fama!
Morreu o homem e ficou a fama. Rebentou o cavalo e, ali mesmo, foi trucidado pelos inimigos. A bandeira fora arremessada pelo herói para dentro das muralhas. Com grande espalhafato de armas e celeuma de vozes, os mouros foram impotentes para recuperarem o galardão. Apenas levaram para a sua terra a lição de coragem que lhes servira o João Tição da Fonseca [5].

Antigamente designada por Igreja de Santa Maria do Sepulcro [ao que se sabe, nome atribuído pelos Templários] e Senhora do Pranto [a seguir à tomada de Ceuta, em 1415], só em 1663 recebeu o [seu atual] nome de [igreja de Nossa] Senhora da Fresta. Datada dos finais do século XII [a igreja] foi erguida sobre uma outra, anterior ao ano de 992. D. Afonso Henriques mandou-a reconstruir e entregou-a, em 1162, à Ordem do Templo. A sua traça romano-gótica permaneceu até ao século XVIII. Tem inscrições e frescos [pintados em 1162] nas paredes, no arco triunfal da capela-mor e na pia baptismal, romântica. A sacristia foi-lhe acrescentada, por promessa, em 1664.

            Escusado será dizer que [Trancoso] é a terra do [famigerado] sapateiro [Gonçalo Annes] Bandarra.


[1] Antes deles e, durante cerca de trezentos anos, lá estiveram os cartagineses.
[2] Trancoso, nos seus primórdios, estava rodeada de densas florestas e, ainda hoje, é viveiro de árvores de grande porte.
[3] Herdada em 960.
[4] As d’El-Rei, a de São João, as do Prado e a do Carvalho e a da Traição. A estas juntavam-se os postigos: Olhinho do Sol e o Boeirinho.
[5] Santos Costa, Almanaque anuário de Trancoso.
Abitureiras [Santarém]

Na matriz [invocação de Nossa Senhora da Conceição*], do lado da Epístola, observa-se uma tábua (1700 mm x 1750 mm) representando o Pentecostes (c. 1590), atribuída por Vitor Serrão ao Mestre de Abitureiras [1].


[*] A fundação da matriz está ligada ao desencantamento de duas mouras. Conta-se que viveram aqui duas fiandeiras, apodadas de Aventureiras (donde o topónimo Abitureiras) que mantinham óptimas relações com elas. Tendo logrado de algum modo quebrar o encantamento às mouras, com as quais dançavam muitas vezes até de madrugada, estas, em paga, tornaram-nas riquíssimas. Com os bens assim obtidos terão decidido empreender a construção da igreja [...] Neste templo, existe a imagem de uma enigmática Santa Sens que, segundo a crença local, deve manter-se constantemente virada para uma janela, a qual deve permanecer sempre aberta, condição necessária para não desaparecer [2].


[1] Manuel J. Gandra, Dicionário do milénio lusíada, volume 1, pp. 39-40.
[2] Boletim da junta de província do Ribatejo, 1937-1940, p. 54. Vide, igualmente, Manuel J. Gandra, Portugal sobrenatural, volume 1, p. 28.
Vilar Formoso [Almeida, Guarda]


            A norte da povoação de Vilar Formoso fica o sítio chamado Tegril que, tudo o indica, parece ser um genitivo de origem germânica, Trasigildus, aludindo a uma villa Trasigildi, muito provavelmente, do século IX ou X, existente na margem da ribeira de Tourões, pelo que o seu povoamento pode ter tido o princípio nessa villa ou numa fracção dela, o velho villar que, despovoado, veio a repovoar-se no século XII a partir de Castelo Bom. É provável que a primitiva localização da atual povoação tivesse sido nas imediações da capela da Senhora da Paz, pois aí foram encontrados abundantes vestígios de construções [1].
A organização paroquial da freguesia é seguramente anterior ao século XIII, uma vez que a [sua] igreja é já citada e taxada, em 15 libras, no arrolamento de 1320.


A igreja matriz [2] e a capela de Nossa Senhora da Paz [3] são obra dos Cavaleiros Templários e, posteriormente, [foram] pertença da Ordem de Cristo.


[1] Alicerces de casas, soleiras, azulejos e tijolos de pavimento, etc. [vide nota seguinte]. Sinal de um povoamento local antiquíssimo são as sepulturas incrustadas na rocha.
[2] A planta da igreja é de uma só nave, com a abside, lugar do altar de menor dimensão, separada por um singelo arco de meio ponto. Na planta da nave rectangular tem quatro arcos de meio ponto apoiados sobre pilares que sustentam o tecto apoiado sobre vigamento de madeira [...] O portado da frontaria com um conjunto de lóbulos e o remate junto ao solo fala-nos de estilos posteriores. O dintel da porta exterior da porta exterior da torre, exterior ao corpo da igreja, à planta inicial, fala-nos da época posterior na qual impera o barroco [...] Este artesanato tem uma armadura mudéjar, que é decoração da combinação da arte cristã e da ornamentação muçulmana [...] Uma abundância de flores embleza todos e cada um dos espaços do sacrário em cuja porta reluz o Senhor Ressuscitado. [A.A.F. Gonçalves, Vilar Formoso, vila raiana]
[3] A Capela é de traça talvez românica. O Românico chegou a terras portuguesas no final do Séc. XI. É um estilo de carácter monástico, pois foi importado e difundido por ordens religiosas.
Tem como particularidades as grossas paredes, estrutura simples e robusta e uma sóbria decoração.
Capela antiga, cueva matriz e da fundação dos Templários, dedicada à Nossa Senhora da Paz. É muito provável que as ruinas encontradas junto à capela, pertençam a um convento da Ordem. [Idem]
Janeiro de Baixo [Pampilhosa da Serra, Coimbra]


Janeiro de Baixo é uma freguesia do concelho de Pampilhosa da Serra e está implantada a sul, junto ao [rio] Zêzere, fazendo fronteira com o [concelho do] Fundão. Foi comenda da Ordem de Cristo e pertenceu às comendas do padroado real. Em 1600 foi avaliada em 100 mil réis, em 1882 deixou de pertencer à diocese da Guarda passando para a de Coimbra e em 1885 passou do concelho de Fajão para o atual.
Segundo alguns autores, Janeiro deriva da corrupção do nome próprio Januário. Trata-se, no entanto, de uma hipótese pouco credível devido ao fato de, na região, o nome ser praticamente desconhecido pelo menos até meados do século XVIII. O mais provável é que o seu nome seja uma corrupção de uma palavra de origem latina ou [mesmo] pré-latina.
Duas Igrejas [Vila Verde, Braga]


Crê-se que [Duas Igrejas] já existia como povoamento em data anterior ao século XII, sendo que, em 1188, é conhecido o primeiro documento escrito relativo a esta freguesia de autoria do arcebispo de Braga [D. Godinho], doando várias propriedades a Sancta Maria Duabus Ecclesiis. Posteriormente, volta a ser referida em documentos de 1219 mas principalmente nas inquirições de 1220, 1258, 1290, 1320, 1371 e 1528.
Foi reitoria da apresentação da Mitra e comenda da Ordem de Cristo [1].

            Com o mesmo nome existem freguesias em Paredes [Porto], Miranda do Douro [Bragança] e Penafiel [Porto].


[1] Foram seus comendadores, entre outros, Francisco de Távora, conde de Alvor e vice-rei da Índia, D. João de Castro de Penela e o poeta Sá de Miranda.
[Santa Maria de] Abade de Neiva [Barcelos, Braga]

            […] Pois tudo vemos ter nascido já (anteriormente ao ano de 1220) nas Inquirições de então, além de outras muitas mais possessões, que bem podiam formar a separada Comenda de Feal, por Final [1], expressas ao menos no parágrafo 196, e seguinte desta Parte I, se achar na Terra, ou Julgado de Prado (a fl. 98 ou 108 dos Livros I e II de D. Afonso II), que a dita Ordem de Malta estava tendo, particularmente na sobredita freguesia de Santiago de Franzelos, ou de Francellos [2], dezasseis casais, e um moio de pão, com vinte pissotas de renda: declarando-se mais de vista, na Inquirição da mesma freguesia no ano de 1258, que numa herdade, a qual partia com outra deixada à Igreja por um Pedro Mendes do Outeiro (diverso daqueles, ou daquele, de que se falou já para o fim do parágrafo 57 acima), de que davam outras duas varas de pano de bragal por fossadeira já o Hospital & fosse ainda a terça daquelas duas varas. E fará talvez pelo mais contexto, que fique prudente a conjetura, de que aquela grande aquisição fora por deixa e testamento de uma dona Jordana. Mas não achando, nem podendo apurar mais coisa alguma específica a este respeito, pelo Antigo Registo do Cartório de Leça; também não me consta, que exista resto algum daquele Couto na Vila, e no termo do Prado: dentro da qual já lembra o P. António Carvalho no Tomo I, Tractado III, Capítulo XI, p. 247, da sua Corografia Portuguesa, haver uma só Paróquia da invocação de Santa Maria e primeiro o tinha sido Santiago de Francellos, hoje Capela particular, que era Comenda de Cristo, e Reitoria da Mitra, com 180 vizinhos; sem que nesse termo apareçam conhecidos como Coutos mais do que os de Freiriz [3], Azevedo [4], e Manhente [5], dos quais fala no Capítulo XIII, p. 250. Quando não queiramos supor, ou conjeturar apenas, que perdendo a Ordem de Malta por qualquer modo, e em tempos desconhecidos o seu Couto de Feal [Faial], talvez com as suas pertenças, até imediatamente para a Ilustre Casa de Freiriz [6]; proceda daqui, e venha por tudo a dever declarar-se o que ali acrescenta o referido Autor, sobre ser antiquíssimo o dito Solar daquela Casa: se bem não faltava quem dissesse tomara esse nome, por ser vivenda de Freires Cavaleiros Templários, Senhores do mesmo Couto (com Juiz Ordinário do Cível, e Órfãos, e Escrivão do Concelho, indo-se no Crime a Prado): aproveitando-se a geral confusão, que em outros lugares tenho lembrado haver a respeito das ainda mais conhecidas, ou certas possessões dos Malteses neste Reino. E D. Gonçalo, ali Comendador da sobredita primeira idade, entre todos os Freires do Hospital com este nome conhecidos, somente poderá ser o D. Gonçalo Egas ou Viegas que com tal nome se pretende chegara a ocupar o primeiro a Dignidade de Prior da mesma Ordem em Portugal, como vai abaixo no parágrafo 242 ainda desta Parte I. Suposto que por outra parte não é impossível que naquela Concórdia se tratasse já da Quinta do Fial [Faial], a que ainda depois de feito prazo da Ordem de Cristo, se encontra unida desde os princípios dela (certamente em sucessão à dos Templários) a Comenda de Cabo Monte; tudo no Bispado do Porto: podendo nela confirmar Freire ou Comendador Templário; assim como nos Documentos desta Ordem se acham confirmando e sendo testemunhas alguns Malteses. Não me chega a ser líquido se algumas pertenças que restaram da sobredita antiga Comenda e Couto de Feal [Faial] ficariam ainda unidas à de Chavão [7]; ou antes às de Aboim [8] e Távora [9] como parece mais próprio e coerente ao seu distrito: sendo certo ao mesmo tempo que é muito diversa coisa o Couto de Feaes [Faial] do qual vai a particular notícia com uma Doação aí feita à Ordem de Malta na Nota 33 ao parágrafo 51 da Parte II. [Nova Historia da Militar Ordem de Malta, e dos senhores grão-priores della em Portugal…, parte I, pp. 262-264]


[1] Casa do Faial, atualmente dedicada ao turismo rural.
[2] Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, Porto.
[3] Vila Verde, Braga. O nome deriva do latim vila frederici, ou seja, quinta do Frederico.
[4] Caminha, Viana do Castelo.
[5] Barcelos, Braga.
[6] Ou dos Meneses da Barca. O senhor deste couto foi Fernão Nunes Barretto, igualmente [quarto] senhor de Gafanhão [Castro Daire, Viseu] e senhor do couto de Penagate [Amares, Braga].
[7] Barcelos, Braga.
[8] Fafe, Braga.
[9] Arco de Valdevez, Viana do Castelo.
Tamel [Santa Leocádia de] [Barcelos, Braga]


            O nome Tamel, ao que tudo indica, provem do árabe thamel, ou seja, descuido, negligência ou desprezo [1].
            Esta localidade situa-se num fértil vale [2] que se estende desde o monte [do] Tamel até à margem direita do [rio] Cávado, e foi vigairaria da apresentação das freiras beneditinas do mosteiro de Viana [da Foz do Lima], por oferta do [seu] abade Jorge de Miranda Henriques [3].
            Nas Inquirições de 1220 aparece como pertencendo à Terra de Nevia e com a designação de Sancta Leocádia de Tamial [4]. Nelas, pode-se ler: quod Rex nullum habet ibi Regalen-gum – quod Rex non est inde patronus – quod ista ecclesia habet senarias et 5 casalia Tempium 2 casalia Balneum 4 casalia Santa Maria de Gallecos 1 casale Hospitale 1 casale.
Ou seja, nesta localidade a Ordem do Templo possuiu cinco casais e a Ordem de São João [Hospitalários] um [casal].


[1] Ao que parece foi também um santo que terá sido martirizado pelo imperador [romano] Adriano.
[2] Neste mesmo vale encontramos [ainda] as localidades de Famel [São Pedro de Fins de] e Tamel [São Veríssimo].
[3] Curiosamente, os marcos divisórios ainda conservam as siglas SB [São Bento] como consta do tombo da freguesia efetuado em 20 de setembro de 1549 e existente no arquivo distrital de Braga [caixa 251].
[4] Aliás, já no Censual de D. Pedro [1070-1093], primeiro bispo de Braga, aparece com esta [mesma] designação.
[Pedra tumular de] frei António de Lisboa


Transcrição da pedra tumular do famigerado frei Antonio de Lisboa, destruidor do que restava da memória templária em Tomar... ano [de] falecimento: 1551.
Esta lápide no chão da Charola está frente à soleira da porta que conduz à torre sineira, na 6.ª aresta do deambulatório a partir do arco de entrada no recinto...
Daqui se infere o que bem lhe assenta: 1+5.5+1 = 666 o diabólico número bíblico... [aqui]
[Santa Maria de] Abade de Neiva [Barcelos, Braga]


Inicialmente chamada de [Santa Maria de] Abade, [Santa Maria de] Vado ou [Santa Maria de] Condevão foi [uma] fundação [em 1152] da rainha D. Mafalda [1] e pertenceu, desde o reinado de D. João I, que a doou a seu filho D. Afonso, ao padroado da casa de Bragança.
A Ordem do Templo, possuiu vários casais [nove] e uma quintana [2] nesta localidade [3]. Foi igualmente pertença da Ordem de Cristo que aí tinha uma comenda [velha, cuja cabeça era a igreja de Santa Maria*], à qual pertencia a casa do Faial [Prado, Braga] sucessivamente aforada, durante o século XVIII, a Lourenço de Castro Alcoforado, juntamente com a comenda de Cabo Monte, junto a Barcelos, no distrito de Braga [4], e a D. Manuel de Azevedo e Ataíde, seu descendente e senhor da honra de Barbosa Barbeita [5].

[*] A iconografia dos quatro capitéis subsistentes no portal ocidental da igreja românico-gótica de Santa Maria retoma alguns temas consagrados: aves afrontadas dessedentando-se numa copa, malabarista, bailarina no papel de sedutora (porquanto acompanhada por uma serpente). Invulgar é a figuração de um ferreiro, bem como a temática de outro capitel de difícil interpretação, no qual a cabeça de um cão (?) surge junto à perna direita de um homem com as mãos nas ancas [6].


[1] Mulher de D. Afonso I.
[2] A quinta do Faial? No seu portão interior vê-se / via-se a seguinte inscrição: Casa e quinta do Fayal pertença da comenda de Cabo Monte na Ordem de Cristo.
[3] Inquisitiones, col. I, p. 227.
[4] Ordenações de 16 de agosto de 1326.
[5] Cf. o padre António Carvalho da Costa, Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal ..., volume I, 1706. Vide Manuel J. Gandra, Guia Templário de Portugal, em Cadernos da Tradição, n.º 1, p. 225.
[6] Manuel J. Gandra, Idem.
A-dos-Ruivos [Carvalhal, Bombarral, Leiria]


O artigo inicial a seguido de dos significa a terra dos, por exemplo: vou à terra dos Ruivos ou, simplesmente, vou à dos Ruivos.
Ao que se julga crer, a origem do seu nome poderá encontrar-se no(s) povo(s) que, na época da reconquista, lá se terão fixado, ou seja, cristãos nórdicos, francos ou bretões [cruzados]. Os mouros chamavam-lhes rúbios, ruivos ou francos [1].
Em 1337, a população fundou uma albergaria e uma confraria [2], o que denuncia a passagem [por lá] de um grande número de peregrinos.
Nesta localidade existe uma ermida dedicada ao [culto do] Espírito Santo [3].


[1] Existe mesmo a hipótese desta aldeia ter sido fundada por uma família de origem franca proveniente, muito provavelmente, de um dos seguintes senhorios: Atouguia, Lourinhã ou Vila Verde dos Francos.
[2] A Albergaria e Confraria do Espírito Santo da dos Ruivos. Carlos Guardado da Silva, A bacia do rio Real, e José Augusto Ramos, Bombarral e o seu concelho.
[3] Manuel J. Gandra, Dicionário do milénio lusíada, volume 1, p. 13.
Olivença


Na primavera de 1230, aquando da reconquista cristã da península ibérica, após a reconquista de Badajoz, Alfonso IX de Leão, como recompensa pela participação dos Cavaleiros Templários portugueses, ofereceu-lhes os enclaves de Burguillos e Alconchel.
Depois, entre esse ano [1230] e o de 1256, a Ordem do Templo estabeleceu, em Olivença [nessa altura era uma pequena povoação que se foi afirmando à volta de uma fonte, a atual fonte de La Corna], a comenda [essencialmente agrícola] de Oliventia, aí erigindo um castelo e uma igreja dedicada a Santa Maria [1].
Em 12 de setembro de 1278 [2], durante o reinado de Alfonso X, o sábio, o bispado de Badajoz desalojou definitivamente os Templários de Olivença.


[1] A igreja de Santa Maria do Castelo foi pertença da Ordem de Avis.
[2] Maria Gil de Sousa, Terras raianas: os casos especiais de Barrancos e Olivença.
Moura Morta [Peso da Régua, Vila Real]

            Num destes dias, enquanto procurava [na internet] já não sei o quê, fui surpreendido com o brasão de Moura Morta, no concelho de Peso da Régua, distrito de Vila Real [1].
            Nele, observei, de imediato, uma cruz da Ordem de Cristo e, depois, uma cruz da Ordem de Malta [2]. Arrebitaram-se-me as orelhas e fui à procura de elementos sobre a mencionada localização, nomeadamente a sua lenda:
Houve noutros tempos um emir [3] que vivia no castro de Cidadelhe e tinha uma criada moura ao seu serviço. Um dia, para tentar obter os favores dos cristãos que eram já muito poderosos nas redondezas, exigiu-lhe que aceitasse receber o baptismo, convertendo-se, desse modo, ao cristianismo. Ela, contudo, recusou. E como castigo, o mouro encerrou-a num cativeiro, acreditando que, pela força, ela cederia aos seus planos.
Um dia a jovem conseguiu fugir, e lançou-se ladeiras abaixo na direcção do rio Sermanha. O mouro, mal deu por isso, veio em sua perseguição. E quando a fugitiva passou para o lado de cá do rio, já no concelho do Peso da Régua, e porque estava já em terras cristãs, abandonou-a.
Entretanto, apanhada pelos cristãos [4], só lhe restavam duas saídas: voltar para trás e entregar-se ao mouro que a perseguia, ou ficar em terras cristãs e converter-se a esta religião.
Não aceitou nenhuma delas. E lavrou assim a sua própria sentença de morte, sendo abatida pelas lanças dos cristãos. E às terras onde o seu corpo foi deixado sem vida, o povo passou depois a chamar Moura Morta [5].


Brasão [de armas]: escudo de prata, com três cômoros de verde, o do centro encimado por um crescente voltado, de vermelho, moventes de uma campanha ondada de prata e azul de quatro tiras; em chefe, cruz da Ordem de Cristo, à dextra e cruz da Ordem de Malta, contornada de vermelho, à sinistra. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: "MOURA MORTA - PESO DA RÉGUA".


[1] Curiosamente existe uma outra freguesia com o mesmo nome no concelho de Castro Daire, distrito de Viseu e cujo nome é igualmente baseado na lenda de uma moura: Uma moura dirigiu-se ao povoado, que, na altura, se chamava Mazes, e encontrou uns rapazes que, sentados à sombra, impediam a sua passagem, já que havia luta entre cristãos e não-cristãos, e bateram-lhe. Ela caiu, morta e foi ai que nasceu o nome Moura Morta.
[2] Ainda hoje existe [ao que parece em ruínas] a casa [senhorial] da [respetiva] comenda, situada na rua que tem por nome de sítio da casa da comenda.
[3] Vide o crescente constante do brasão [de armas].
[4] Ao que dizem algumas vozes seriam Cavaleiros Templários [outros, ao invés, dizem que seriam Cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém], que aí teriam permanecido até à sua extinção, em 1319.
[5] Alexandre Parafita, A mitologia dos mouros: lendas, mitos, serpentes, tesouros, p. 314.